A filiação de Ronaldo Caiado ao PSD não é apenas mais uma troca de partido no xadrez nacional. Ela começa a gerar efeitos colaterais que chegam com força à Bahia, onde o PSD ocupa hoje um lugar estratégico na base do governador e pré-candidato à reeleição, Jerônimo Rodrigues (PT).
No plano nacional, a entrada de Caiado empurra o PSD para ainda mais longe da órbita do presidente Lula (PT). Essa movimentação ganha contornos mais claros quando observada ao lado de Eduardo Leite e Ratinho Júnior. Trata-se de um movimento que dialoga com a tentativa de afunilamento da oposição em torno de um nome competitivo para 2026. Caiado se soma a outros pré-candidatos do campo antipetista, como Flávio Bolsonaro, e passa a integrar um bloco que busca levar o pleito ao segundo turno.
A consequência inevitável é uma reconfiguração que tende a respingar nos estados, inclusive na Bahia, onde a legenda é comandada por Otto Alencar e integra formalmente a base do PT. A chegada de Caiado ao PSD também atende, em análise preliminar, aos interesses do senador Angelo Coronel.
Há meses, Coronel vem tecendo ameaças cada vez mais explícitas diante da insatisfação com a possibilidade de ser excluído da chapa majoritária de Jerônimo, diante do desejo do próprio PT em ocupar as duas vagas ao Senado com Jaques Wagner e Rui Costa numa chapa puro-sangue. Nesse cenário, o pessedista de Coração de Maria chegou a sinalizar lançar uma candidatura avulsa.
Embora partidos aliados da oposição tenham sido colocados como possíveis destinos para Coronel, caso ele migrasse para o campo de ACM Neto, cresce agora a aposta na sua permanência no PSD, justamente para viabilizar essa candidatura avulsa ao Senado. Isso recoloca no jogo uma tese que vinha sendo ventilada no campo carlista: lançar apenas o nome de João Roma ao Senado e deixar a segunda vaga em aberto, permitindo que Coronel dispute de forma independente. Marcelo Nilo, que teve a segunda vaga prometida na chapa do ex-prefeito de Salvador, teria uma candidatura esvaziada neste cenário.
Essa tese ganha força diante de declarações públicas recentes de Otto Alencar, ao afirmar que Coronel só não será candidato a senador se não quiser. Veterano, Otto não faria esse tipo de afirmação sem cálculo político…
Ainda assim, é difícil imaginar o PSD baiano migrando oficialmente para a base de ACM Neto. Otto carrega uma relação de gratidão política profunda com Jaques Wagner, responsável por trazê-lo de volta ao centro do jogo político baiano após o rompimento com o ACM “original”. A tendência mais provável é que Gilberto Kassab libere o diretório estadual para atuar com independência, sem alinhamento automático nem ao PT, nem à oposição (uma posição parecida foi tomada em 2022, quando o PSD liberou seus filiados para apoiar Lula ou Bolsonaro).
Kassab, aliás, está longe de ser um ator identificado com a esquerda. Atualmente, ocupa a Secretaria de Governo do bolsonarista Tarcísio de Freitas, em São Paulo, o que ajuda a explicar a guinada mais clara do PSD à direita no cenário nacional.
Do lado do PT baiano, o clima também mudou. Na entrevista para a Rádio Baiana FM nesta semana (após a visita de Lula a Salvador, diga-se), Jaques Wagner indicou que o partido já trabalha com tranquilidade a hipótese de uma chapa exclusivamente petista na Bahia, reservando apenas a vice ao MDB e praticamente cravando nas entrelinhas que Angelo Coronel está fora. Antes, nos bastidores, havia um temor real de que uma candidatura avulsa de Coronel pudesse ameaçar a própria eleição de Wagner, já que pesquisas chegaram a mostrar ambos com intenções de voto próximas. Esse receio parece ter ficado para trás. Será?
Vale lembrar que a relação entre Wagner e Coronel já foi bem diferente e o pessedista deveria ser mais grato ao ex-governador. Em 2018, o senador foi eleito graças ao próprio petista, que levantava seu braço nas carreatas pelo interior do estado. À época, Coronel enfrentava forte rejeição da militância petista, especialmente por ter tirado a chance de Lídice da Mata se reeleger na disputa pelo Senado daquele ano.
Resta saber se os oito anos de mandato e a quantidade de emendas despejadas nos rincões da Bahia lhe trouxeram uma capilaridade eleitoral real para bater de frente com a santíssima trindade petista.
Para além disso, é preciso ficar também atento aos movimentos de ACM Neto a partir de agora. O pré-candidato ao Governo da Bahia vinha dizendo que Caiado era o seu candidato à Presidência. Como, então, vai ficar o palanque do presidenciável de Goiás na Bahia pelo PSD? Uma salada política interessante foi montada.
O tabuleiro eleitoral está pegando fogo e ninguém mais pode fingir que 2026 ainda está longe. A corrida às urnas, que normalmente começaria em abril, neste ano começou antes do Carnaval. E a Festa de Iemanjá, inclusive, promete trazer cenários mais definidos.
Fonte: BNews