O Carnaval é muito mais do que alguns dias de festa; é um fenômeno biopsicossocial que altera profundamente o comportamento humano. Na concepção de muitos, a maior festa de rua do planeta suspende regras sociais e incentiva a busca ilimitada por prazer imediato sem preocupação com as consequências advindas dessa postura. Por isso, é fundamental se discutir o assunto.
Para entender melhor os mecanismos comportamentais e biológicos da festa, o BNews conversou com Rafael Peixoto, psicólogo do Programa de Dependência Química da Clínica Holiste Psiquiatria, sediada em Salvador. O especialista, através de uma matéria em formato ping pong, explicou como o período de folia momesca infuencia as pessoas, impactando o autocontrole social.
Confira a reportagem exclusiva a seguir:
Site BNews (SBN) – Quais são as principais mudanças comportamentais observadas nas pessoas durante o período de Carnaval?
Psicólogo Rafael Peixoto (PRP) – O Carnaval pode ser compreendido como um ritual coletivo em que as regras que organizam a vida cotidiana, como contenção, autocontrole e adequação social, são temporariamente afrouxadas. Esse relaxamento cria um cenário propício para que desejos, impulsos e curiosidades que costumam ser contidos ao longo do ano encontrem formas mais diretas e até mesmo distintas de expressão.
Nesse contexto, observa-se uma maior desinibição comportamental e sexual, com aumento da permissividade para flertes, contatos físicos e experiências que, fora desse período, muitas pessoas evitariam. Há uma busca intensa por prazer imediato, pela vivência do novo e por experiências que subvertam a rotina. O comportamento tende a se tornar mais impulsivo, guiado muito mais pela oportunidade do momento do que pela reflexão mais profunda sobre as consequências.
As fantasias se manifestam não apenas nas roupas repletas de brilho, plumas e cores, mas também no plano subjetivo. Trata-se de uma fantasia simbólica, em que o indivíduo se permite experimentar versões de si mesmo que frequentemente permanecem adormecidas ao longo da vida, muitas vezes ligadas à sexualidade, à liberdade de expressão e a experiências que normalmente não se ousa viver.
SBN – Como a euforia e a pressão social por ‘ser feliz’ no Carnaval podem desencadear ou piorar sintomas de ansiedade e depressão?
PRP – Existe um imperativo social muito forte de que o Carnaval deve ser, obrigatoriamente, um momento de extrema euforia e um estado de felicidade constante. A ideia de que todos precisam estar alegres, dispostos e aproveitando intensamente tudo pode gerar sofrimento em quem não consegue acessar esse estado com naturalidade. Para essas pessoas, instala-se um sentimento de inadequação e uma pressão interna para “dar conta” da festa, para se permitir, mesmo quando isso não faz tanto sentido emocionalmente. Em alguns casos, o uso de substâncias lícitas ou ilícitas surge como tentativa de alcançar artificialmente o nível de euforia que parece ser exigido pelo ambiente ao redor.
As comparações, intensificadas pelas redes sociais e pela seleção cuidadosa do que é exibido publicamente, ampliam essa sensação de insuficiência. A ansiedade pode surgir da tentativa forçada de se encaixar, enquanto os sintomas depressivos podem se aprofundar à medida que o sujeito percebe que suas expectativas não correspondem à experiência real vivida.
O samba-enredo “É Hoje”, da União da Ilha, celebra o auge da alegria carnavalesca e ilustra de forma precisa a pressão interna por corresponder ao ideal de felicidade que marca esse período. Ao evocar a pergunta “Diga, espelho meu, se há na avenida alguém mais feliz que eu!”, a letra traduz a necessidade de se olhar, se comparar e se identificar com uma imagem de felicidade plena, quase obrigatória. O verso expõe, de maneira simbólica, como o Carnaval pode intensificar a busca por validação externa e reforçar o imperativo de ‘parecer feliz’, mesmo quando a experiência interna não acompanha essa expectativa.
SBN – Pode-se afirmar que, embora seja um alívio para o estresse de muitos, esse cenário de euforia, anonimato e excessos pode potencializar sintomas de distúrbios mentais, como ansiedade, depressão e transtornos de humor, além de aumentar comportamentos de risco?
PRP – O Carnaval reúne três elementos muito potentes: anonimato, desinibição e excesso. Essa combinação tende a fragilizar os mecanismos de autorregulação emocional e pode intensificar sintomas que já fazem parte da história psíquica do sujeito. Pessoas com ansiedade podem se lançar a situações que, posteriormente, geram culpa intensa. Indivíduos com instabilidade de humor podem oscilar rapidamente entre euforia e angústia. Comportamentos de risco, como brigas, relações sexuais sem proteção e uso abusivo de substâncias, tornam-se mais frequentes nesse contexto. Um exemplo recorrente na prática clínica é o de pessoas que passam vários dias em estado de excitação, dormem pouco, consomem álcool ou outras drogas em excesso e, após o término da festa, entram em um estado de humor rebaixado, marcado por vazio, apatia e até mesmo arrependimento pelos atos cometidos.
SBN – Quais os principais impactos comportamentais e psicológicos da época mais frenética do ano?
PRP – Entre os impactos mais comuns estão: a desorganização da rotina de sono e vigília; o aumento da impulsividade; a hipersexualização dos corpos; a sensação de estar acima dos próprios limites; e uma queda abrupta da energia emocional após o fim das festividades. A relação com o tempo durante o Carnaval também se modifica. Vive-se um tempo condensado, quase sem futuro. O que importa é o agora, o instante presente, como se tudo pudesse acontecer ali e como se o depois não precisasse ser considerado.
SBN – O anonimato das fantasias ou a multidão reduzem as inibições, tornando comportamentos de risco mais frequentes, que, muitas vezes, são responsáveis por brigas com vítimas graves?
PRP – As fantasias podem funcionar como um deslocamento temporário da identidade, criando a sensação de que não é exatamente o sujeito que age, mas o personagem que ele idealiza naquele momento. A presença da multidão também exerce um efeito importante, pois dilui a responsabilidade individual e reforça a percepção de que “tudo é permitido”, o que pode aumentar a exposição a situações de risco.
Nesse cenário, tanto pessoas em maior estado de vulnerabilidade quanto indivíduos que já chegam às festas com intenções agressivas podem se sentir ainda mais “autorizados” a ultrapassar limites. Esses comportamentos não estão necessariamente ligados às fantasias das vestimentas, mas à fantasia interna de poder e impunidade, na qual o sujeito acredita que pode agir sem consequências. Isso se expressa em atitudes como assédio, especialmente contra mulheres, brigas sem motivação clara e outras formas de violência.
O consumo abusivo de álcool e outras substâncias intensifica esse quadro, pois reduz o senso crítico e altera o estado de consciência, favorecendo a perda de controle dos impulsos. Em alguns casos, essa combinação é responsável por atitudes transgressoras graves e por situações de risco que resultam em ferimentos sérios ou consequências duradouras para todos os envolvidos.
É importante destacar que a droga, por si só, não provoca o surto psicótico; ele surge em indivíduos com predisposição, porém o consumo precoce ou em excesso pode acelerar o desencadeamento do quadro. Algumas substâncias ilícitas podem induzir a paranoias, enquanto o álcool, apesar de socialmente aceito, atua como depressor do sistema nervoso central, podendo levar a alterações rápidas de humor, passando da euforia intensa à sensação de vazio e rebaixamento de humor.
SBN – Quais os ‘gatilhos’ de comportamentos provocados pelo Carnaval e de que modo isso ocorre?
PRP – Entre os gatilhos mais frequentes dos comportamentos no Carnaval estão a música repetitiva e envolvente, que mantém o corpo em constante estado de excitação, o uso de álcool e outras drogas como facilitadores das interações sociais, o contato corporal intenso e a erotização permanente dos corpos no espaço público. Esses fatores, quando combinados, reduzem a percepção de limites e favorecem atitudes mais impulsivas, muitas vezes vividas como naturais ou esperadas dentro do clima da festa.
A ideia amplamente divulgada de que “o que acontece no Carnaval fica no Carnaval” funciona como uma autorização simbólica para ultrapassar limites pessoais e interpessoais, criando a ilusão de que não haverá consequências posteriores. Muitas pessoas reconhecem esse movimento ao lembrar de situações presenciadas ou vividas, como excessos no consumo de álcool, invasões do espaço do outro ou decisões tomadas sem reflexão, que depois geram desconforto, culpa ou conflitos quando o ritmo da festa se encerra e a rotina é retomada.
SBN – As mudanças comportamentais neste período ocorrem somente em pessoas que já têm predisposição a distúrbios mentais, instabilidades emocionais ou que já enfrentam problemas psicológicos?
PRP – A festa de Carnaval provoca mudanças comportamentais em praticamente todas as pessoas que participam do rito, mas a intensidade e a forma como essas mudanças são vivenciadas variam bastante. Indivíduos com maior estabilidade emocional geralmente conseguem aproveitar o período e, após o término da festa, retomar suas atividades com mais facilidade, reorganizando a rotina e equilibrando o estado emocional. Por outro lado, pessoas que já apresentam sofrimento psicológico, instabilidades emocionais ou quadros prévios de adoecimento mental grave tendem a ser mais impactadas. Nesses casos, alterações no sono, excesso de estímulos e quebra da rotina podem levar a descompensações emocionais, prolongar sintomas e dificultar a retomada do equilíbrio no período pós-festa.
O excesso de estímulos sensoriais, combinado com noites mal dormidas, cria um ambiente de hiperestimulação do sistema nervoso. Não se trata apenas de um fator isolado, mas da soma de diversos elementos simultâneos que empurram o corpo e a mente para um estado de alerta constante. Quando a privação de sono se junta à falta de hidratação, ao consumo excessivo de álcool, à alimentação inadequada e ao ritmo acelerado das festas, a capacidade de autorregulação emocional fica significativamente comprometida.
Esse contexto pode favorecer o surgimento de sintomas como ansiedade, irritabilidade, sensação de perda de controle, esgotamento mental e, em alguns casos, até sensação de claustrofobia, especialmente durante o Carnaval, devido ao grande volume de pessoas nas ruas e à falta de espaços de respiro. Cada indivíduo responde de maneira diferente, mas a sobrecarga de estímulos é um fator importante que pode intensificar reações emocionais e físicas já existentes.
SBN – Blocos carnavalescos voltados para a inclusão social podem representar um acolhimento para quem possui problemas mentais?
PRP – Blocos carnavalescos voltados para a inclusão social são espaços que promovem participação, pertencimento e visibilidade para pessoas que historicamente enfrentam exclusão ou estigma, como indivíduos com sofrimento psíquico ou limitações físicas. Diferente dos blocos tradicionais, esses coletivos oferecem um ambiente seguro e protetor, permitindo que os foliões vivenciem essas experiências de forma livre e sem medo. O Carnaval, assim, transforma-se em um espaço de integração social e bem – estar.
No Brasil, existem algumas iniciativas que exemplificam esse movimento. No Rio de Janeiro, por exemplo, os blocos Loucura Suburbana e Zona Mental promovem a participação de usuários e familiares da rede de saúde mental, oferecendo uma folia estruturada, segura e inclusiva, que combina diversão e proteção para todos os envolvidos.
Além de promover segurança, esses blocos funcionam como instrumentos de fortalecimento de vínculos sociais e prevenção de sofrimento psíquico, permitindo que os indivíduos se sintam incluídos, observados e respeitados dentro do espaço coletivo. Participar de uma festa inclusiva, onde limites pessoais são reconhecidos e cuidados compartilhados, ajuda a reduzir o estresse, favorece o bem-estar emocional e cria experiências positivas. Dessa forma, a inclusão social na folia não apenas democratiza o acesso à festa, mas também atua como um recurso promoção a saúde mental.
SBN – Qual a sua avaliação sobre a seguinte afirmação: “O Carnaval pode ser um momento de liberdade e alegria, mas o autoconhecimento é a melhor fantasia para proteger a saúde mental”?
PRP – O Carnaval oferece uma sensação intensa de liberdade e prazer, mas sem uma consciência mais profunda de si mesmo, essa liberdade pode se perder em repetições de expectativas sociais e na busca por validação externa. As experiências novas frequentemente funcionam como uma fuga temporária de si, mas é na vivência constante, ao se permitir experimentar e sentir, que o indivíduo passa a reconhecer seus desejos, perceber seus limites e compreender sua própria maneira de existir e estar no mundo. Esse movimento de percepção e apropriação da experiência possibilita diferenciar o que é feito por prazer genuíno daquilo que é apenas uma reprodução do que se espera dos outros. É também nessas vivências que o conhecimento de si vai se consolidando, evitando que a festa termine em vazio ou arrependimento, e abrindo espaço para escolhas mais autênticas e para uma ampliação da percepção de si mesmo.
SBN – O que é a ‘síndrome do pós-carnaval’ e por que a tristeza após a festa é comum?
PRP – A chamada “síndrome do pós-Carnaval” não é um termo clínico oficial, mas uma expressão popular usada para descrever o mal-estar físico e emocional que algumas pessoas sentem após o fim da festa. Esse estado pode incluir tristeza, desânimo, crise de abstinência, irritabilidade e sensação de vazio, sem, no entanto, configurar um transtorno mental por si só.
Essas sensações são comuns para quem vivencia o período do Carnaval como um período de intensa estimulação e prazer, que muitas vezes altera hábitos de sono, alimentação e rotina. Quando a festa termina, ocorre um retorno abrupto às responsabilidades do cotidiano, criando um contraste marcante entre os dias de euforia intensa e a necessidade de retomar limites e tarefas diárias.
Na maioria dos casos, esse mal-estar é passageiro e melhora à medida que o sono, a alimentação e a rotina se regularizam. No entanto, se a tristeza se prolonga ou se intensifica, observam-se oscilações de humor frequentes ou surgem sinais de dependência de substâncias, o que pode indicar algo além do efeito pós-festa, sendo importante buscar avaliação profissional.
SBN – Quais são as suas orientações para um Carnaval mentalmente saudável?
PRP – Cuidar da saúde mental não se opõe ao prazer; pelo contrário, é ela que sustenta o aproveitamento pleno da festa. Dormir bem, manter a hidratação, alimentar-se adequadamente, respeitar os sinais do corpo, usar protetor solar e combinar cuidados entre os amigos são práticas simples que protegem tanto a mente quanto o corpo e ajudam a aproveitar o Carnaval de forma segura e consciente. Reconhecer o momento de se retirar da festa e retornar para casa também é uma forma importante de autocuidado.
Planejar limites prévios, organizar horários, definir o consumo de substâncias e escolher companhias confiáveis reduz o risco de decisões impulsivas. Alternar dias de festa com descanso, preservar o sono e nunca suspender medicações sem orientação médica são atitudes fundamentais. Viver o Carnaval como uma experiência, e não sob a lógica do tudo ou nada, permite aproveitar a festa plenamente, sem se perder de si mesmo.
SBN – Quais são os protocolos, métodos usados para tratar esses impactos causados em função do período carnavalesco?
PRP – Durante o Carnaval e, principalmente, no período pós-festa, observa-se aumento nos atendimentos em saúde mental relacionados ao uso de álcool e outras drogas, descompensações de humor, crises de ansiedade e agravamento de quadros psiquiátricos prévios. Fatores como privação de sono, excesso de estímulos, suspensão de medicações e uso indiscriminado de substâncias contribuem para essas situações.
Na Holiste Psiquiatra, por exemplo, visamos um cuidado personalizado, considerando a história clínica, o diagnóstico, contexto familiar, grau de risco e condições emocionais e físicas do paciente. O atendimento começa com uma avaliação psiquiátrica detalhada, que analisa o estado mental, uso de substâncias, padrão de sono, adesão medicamentosa e presença de riscos, como ideação suicida ou comportamentos impulsivos. A partir dessa avaliação, é definido um plano terapêutico individualizado, que pode incluir ajuste de medicação, acompanhamento psicológico intensivo, organização da rotina, atividades e acompanhante terapêuticos.
O atendimento pode ser realizado de forma ambulatorial, com consultas periódicas, ou, em casos mais graves, por internação em regime integral, com monitoramento 24 horas por uma equipe interdisciplinar formada por psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais e outros profissionais. Durante a internação, o paciente pode participar de programas personalizados, incluindo psicoterapia individual, atividades terapêuticas em grupo e outras intervenções contínuas de suporte para controle de sintomas e reorganização emocional.
Em situações intermediárias, quando o paciente apresenta sofrimento significativo, mas mantém alguma autonomia, temos o serviço do Hospital Dia. Nessa modalidade, a pessoa permanece durante parte do dia na instituição, participa de atendimentos médicos, psicoterapia individual e em grupo, atividades terapêuticas diversas, retornando ao convívio familiar ao final do período. Essa abordagem permite cuidado intensivo sem afastamento total da rotina.
Em todos os casos, o plano de cuidado é continuamente reavaliado e ajustado de acordo com a resposta clínica. O objetivo é não apenas conter crises, mas promover estabilização emocional, fortalecimento dos recursos psíquicos, prevenção de novas descompensações e acolhimento das famílias, garantindo um tratamento ético, humanizado e singular.
“O lado positivo da festa”
O Carnaval apresenta importantes aspectos positivos do ponto de vista social, cultural, econômico e emocional. A festa reúne famílias, amigos, moradores locais e turistas, promovendo encontros, trocas culturais e o fortalecimento dos vínculos comunitários. A ocupação dos espaços públicos favorece a convivência coletiva e estimula o sentimento de pertencimento à cultura local.
No campo da saúde mental, quando vivido com consciência e respeito aos próprios limites, o Carnaval pode funcionar como um importante recurso de alívio do estresse e lazer. A música, a dança, o riso e a convivência social estimulam a liberação de neurotransmissores associados ao prazer e ao bem-estar, como a dopamina e a endorfina, contribuindo para sensações de satisfação e equilíbrio emocional. Para muitas pessoas, a festa também representa um espaço de expressão corporal, criatividade e contato com aspectos lúdicos da própria identidade, favorecendo a sensação de vitalidade e de conexão consigo e com o outro.
Fonte: BNews