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Com ‘coletiva de mentira’, Damares quis mostrar que silêncio das mulheres incomoda

Damares Alves, a ministra da Mulher, da Família e Direitos Humanos do governo de Jair Bolsonaro.

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, convocou na tarde desta segunda-feira (25) uma coletiva de imprensa. Porém, ao chegar ao local, a ministra estava aparentemente abalada, ficou em silêncio e abandonou a entrevista sem responder às perguntas direcionadas a ela.

Cerca de uma hora depois, a assessoria de imprensa do Ministério informou que o ato, na verdade, foi uma encenação para lembrar o Dia Internacional do Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, estipulado pela ONU em 25 de novembro e que o objetivo não era conversar com jornalistas, mas sim, “mostrar como o silêncio da mulher incomoda”. 

No vídeo acima é possível ver o momento em que a ministra chega para a coletiva de imprensa no Palácio do Planalto. Damares chega ao local sem cumprimentar os jornalistas presentes e não responde a questionamentos feitos por eles. Em seguida, a ministra publicou o vídeo em seu perfil do Twitter acompanhado de reticências na legenda, sinalizando silêncio.

Ela também explicou nas redes sociais a situação. ”É muito ruim tirar a voz de uma mulher. Era esse o recado que eu queria dar. E obrigada por terem participado, voluntariamente e involuntariamente, da campanha. Que todas as mulheres tenham voz”, disse. Assista abaixo. 

Incentivar as mulheres a quebrarem o silêncio é a tônica da campanha do governo federal para este ano. Também nesta segunda-feira (25), o governo lançou uma nova campanha chamada “Denuncie. Você tem voz”, para incentivar as mulheres a não se calarem diante de violência contra a mulher, acionando o canal de denúncia 180, a Central de Atendimento à Mulher. 

Os planos de Damares para o combate à violência 

Mais tarde, Damares participou solenidade do dia do enfrentamento à violência contra a mulher, realizada no Palácio do Planalto. A ministra Tereza Cristina, do Ministério da Agricultura ― segunda mulher que comanda um ministério no governo de Jair Bolsonaro ― também estava presente no evento. 

Em fala enérgica, a ex-pastora discursou por mais de 23 minutos e afirmou que o governo está comprometido em erradicar a violência contra as mulheres no Brasil e citou iniciativas que o ministério pretende colocar em prática.

Uma delas, anunciou Damares, é pintar de rosa dois navios na Amazônia e fazer deles uma espécie de “Casa da Mulher Brasileira” itinerante. Este local, idealizado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres, durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2013, é um centro humanizado e especializado no atendimento à mulher em situação de violência doméstica.

Incialmente, a proposta era que a iniciativa chegasse aos 26 estados brasileiros e ao Distrito Federal até o fim de 2018, quando o segundo mandato da petista, originalmente, terminaria. Até hoje, o projeto só chegou a sete lugares: São Paulo, Brasília, Ceará, Paraná, Maranhão, Mato Grosso do Sul e Roraima. 

Durante inauguração da primeira Casa, em São Paulo, no início de novembro, a ministra disse que pretende reformular o projeto. Em vez de unidades grandes como a de São Paulo, que é uma casa com cerca de 3.659 metros quadrados, investirá em modelos menores que cheguem a lugares fora de capitais.

Além disso, a ministra afirmou que deseja transformar todas as delegacias do País em “delegacias da mulher” e que isso seria feito por meio de capacitação de delegados e equipe “nem que seja uma salinha pequenininha”, afirmou. 

A capacitação dos agentes de segurança que trabalham em delegacias começará em janeiro de 2020, sem prazo para término, disse a ministra. O orçamento, que não teve seus valores especificados, virá do programa “Salve uma Mulher” promovido pela Secretaria da Mulher, que é submetida à pasta. 

Damares ainda defendeu que o governo de Jair Bolsonaro é “formado por mulheres” e que este lhe deu carta-branca para promover ações que melhorem a situação da mulher na sociedade. Entre os 22 ministros do governo atual, apenas 2 são mulheres. 

Os números da violência contra a mulher no Brasil

Em 7 de agosto de 2006, a Lei Maria da Penha estabeleceu que é dever do Estado criar mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra as mulheres e que todas elas, “independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião”, devem gozar dos direitos fundamentais, “oportunidades e facilidades para viver sem violência”. 

Apesar dos treze anos da existência de uma legislação como esta no Brasil, é crescente o número de mulheres assassinadas no País. Segundo o Atlas da Violência de 2019, 4.963 brasileiras foram mortas em 2017, considerado o maior registro em dez anos.

A taxa de assassinato de mulheres negras cresceu quase 30%, enquanto a de mulheres não negras subiu 4,5%. Entre 2012 e 2017, aumentou 28,7% o número de assassinatos de mulheres na própria residência por arma de fogo. 

A Defensoria Pública de São Paulo, por meio do Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem), disponibiliza cartilhas com orientações de atendimentos à mulher vítima de violência, além de endereços de delegacias especializadas.

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