Bahia

Empreendedorismo feminino: baianas revelam força no mercado

Empreender, muitas vezes, era tida como uma tarefa masculina. No Brasil, mais da metade dos novos negócios abertos em 2016 foi fundada por mulheres

Tradicionalmente, em diversos lugares do mundo, as meninas estiveram sempre submetidas a um tipo de trabalho muito semelhante à servidão. Os cuidados com a casa foram sempre presentes entre as tarefas “de mulher”, o que nada tem a ver o emprego remunerado ou escolhido para ser realizado. Muitas mulheres, ainda que tenham emprego fora de suas casas, enfrentam jornadas triplas de trabalho dividindo-se entre demandas diversas como educação, cuidado com a família e, obviamente, com os lares. Empreender, muitas vezes, era tida como uma tarefa masculina. No Brasil, os dados  apontam para a construção de uma nova realidade do mercado de trabalho. Mais de metade dos novos negócios abertos em 2016 no país foi fundada por mulheres, de acordo com um levantamento mundial Global Entrepreneurship Monitor 2017, em parceria com o Sebrae.

O Brasil registrou um aumento de 34% no número de mulheres empreendedoras, entre 2001 e 2014, de acordo pesquisa Donos de Negócios – Análise por Gênero 2015, elaborada pelo Sebrae com dados da Pnad/IBGE de 2014. Somente em 2014, eram 7,9 milhões as empresárias em atuação no mercado e, desse total, 98,5% como donas de Micro e Pequenas Empresas (MPE).

Para Fernanda Gretz, gerente da Unidade de Atendimento Individual do Sebrae-BA, a mudança no perfil do empreendedorismo no Brasil se dá por uma conjunção de fatores. “Atualmente muitas mulheres estão se tornando chefe da família, responsável pela principal renda da família. Associado a isso, temos o tema de Empreendedorismo cada vez mais sendo aplicado em escolas e faculdades e isso torna mais facilmente um caminho de oportunidade para quem deseja ingressar no mercado profissional”, reflete.

Sensibilidade e detalhes
O fato de não conseguir tirar férias foi o estalo para a designer de interiores Ila Safira repensar não só sua rotina de trabalho, mas o que ela fazia para se sustentar. Natural de Salvador, Ila passou metade da vida entre Feira de Santana e Salvador e, em 2016, coma a ajuda da concunhada resolveu abrir uma loja virtual de bijuterias. “O mercado de Feira de Santana era muito restrito para uma bijuteria diferente. A gente começou com uma loja virtual pelo Instagram e tudo foi muito rápido,depois de três meses alugamos um ponto e depois uma segunda loja, que funciona em um ponto colaborativo”, conta animada.

Atualmente, 68% do faturamento da Carmen Baiana é proveniente de clientes entre 26 e 35 anos. Além da bijuterias, as lojas vendem linhas de squeezes e lancheiras e vendem os produtos para várias cidades do Brasil. Questionada se enfrentaram dificuldades no negócio por serem mulheres, Ila confirma. “Existe uma dificuldade na hora de negociar o valor de uma compra, a gente diminue nosso valor de barganha. Isso ainda existe, mas não incomoda mais”, pondera.

Ila credita à sensibilidade feminina o diferencial do seu negócio.”Nós somos mais sensíveis, temos uma linha percepção diferenciada, nos preocupamos com os detalhes, com os cuidados. Esse é o nosso diferencial”, sorri ao falar do amor pelo empreendedorismo.

Maria Helena, dona da Malena Modas e sua filha Malu
Foto: Divulgação

Ouvir e entender as dores dos clientes são os pontos-chave do negócio de Maria Helena Leite. Com mais de 30 mil seguidores no Instagram, a “Malena Tal Mãe, tal Filhos” vende roupas iguais para mães e filhos em Salvador. A maternidade foi o divisor de águas na carreira de Maria Helena desde 2014, mãe de Malu. “Eu sou administradora com formação em gestão empresarial, trabalhava e tinha um excelente salário, até que eu virei mãe de decidi largar tudo. Iniciei como loja virtual e desenvolvi um trabalho de marketing para apresentar a Malena ao mercado criando estratégias para ser conhecido mercado”, relembra.

Em 2015, Maria Helena criou uma fashion truck com características inovadoras para Salvador. “A loja foi projetada para atender o cliente com todo conforto de uma loja física, com ar-condicionado, provador e uma vitrine. O objetivo era atender ao cliente de forma personalizada, ir até o cliente. Eu pesquisei muito, criei estratégias.O Sebrae foi importantíssimo com a consultoria no meu negócio é hoje somos referência no mercado exportando para diversos países como Boston, Singapura, Miami, Suécia e outros lugares,” disse.

Lidar com um mercado de trabalho machista não foi um desafio na vida da empresária, que desde 2015 aumentou em 40% suas vendas. “Eu sempre gostei de desafios, me sinto empoderada. Meu primeiro passo foi fazer uma análise de mercado e identificar se existia demanda para o meu negócio de moda tal mãe, tal filha. Após essa análise e com a sensibilidade de mãe, transformei meu negócio em um realizador de sonhos, porque vestir tal mãe, tal filhos vai muito além de vestir roupa, vestimos sentimentos e compartilhamos amor por onde passamos.Hoje com o crescimento da marca, além da loja móvel, inauguramos um ponto fixo em parceria com a loja Katavento no shopping Paseo”, afirma.

Desafios e persistência
Na Bahia, as mulheres empreendem mais nos setores de Comércio e Serviços. A exemplo de empresas que atuam com Confecção e Acessórios, Beleza e Estética e Alimentação. Para Fernanda Gretz, gerente da Unidade de Atendimento Individual do Sebrae-BA, o empreendedorismo feminino movimenta a cadeia produtiva de uma forma diferente, no entanto, ainda esbarra em alguns desafios como rotina de conciliação e o domínio masculino de algumas áreas de atuação. “A conciliação da vida pessoal em sua família com a vida empresarial é um grande desafio para as mulheres. Muitas delas precisam cuidar do dia a dia de suas casas, dar assistência aos filhos ou parentes mas também dispor de tempo para gerir seu negócio. Outro desafio é que, determinados ramos de negócios, ainda possuem paradigmas de serem atividades mais masculinas e muitas vezes a mulher empresária poderá enfrentar maior dificuldade de se estabelecer no segmento”, analisa.

Não desistir da matéria-prima do seu trabalho foi a principal dificuldade enfrentada pela empresária Mirela Cardoso, dona da Wari Pratas. ” A gente tinha dor de cabeça com os fornecedores, que tinham uma resistência de trabalhar com a prata. Eles nos diziam que o retorno financeiro seria outro e nos perguntavam por que a gente não usava o ouro”, relembra. Criada em 2015, a Wari Pratas pertence a Mirela e sua sócia Ana Paula Riscado e começou como negócio digital – com a revenda de peças tradicionais de prata e muitos modelos asiáticos. Atualmente, a empresa conta com um ponto fixo e emprega seis funcionários. “Com  a Pandora, surgiu a questão de peças de pratas mais delicadas, mas finas, características que antes eram apenas de peças de ouro. A gente entendeu que o mercado tinha essa necessidade e passamos a pesquisar mais e produzir as nossas peças”, relembra Cardoso.

Ana Paula Riscado e Mirela Cardoso, donas da Wari Pratas. Foto: Reprodução

A produção própria das peças rendeu ao negócio das sócias o aumento quadriplicado do faturamento entre 2015 e 2018. “Muitas clientes mulheres nos dizem que priorizam o nosso trabalho por sermos mulheres. Além disso, fidelizamos o cliente com a garantia vitalícia das peças, manutenção e uma assistência diferenciada”, explica.

A fonoaudióloga Lorena Mascarenhas enxergou em uma habilidade a possibilidade de aumentar a renda migrando para uma nova área. “Trabalhar como boleira surgiu como um plano B e hoje é minha principal atividade. Estava com um rendimento mensal baixo e precisava mudar de área. Queria trabalhar em algo que eu pudesse conciliar em estar em casa com minhas filhas”, relembra. Divorciada, a boleira disse não ter enfrentado dificuldades para empreender por ser mulher. “Sempre fui bem aceita nessa área. Divulguei nas redes sociais, fiz alguns bolos e provas pra família, amigos e vizinhos e rapidamente começaram as encomendas. Hoje eu trabalho em minha residência e consigo cuidar delas. Mas a demanda está aumentando e penso, a longo prazo, abrir uma loja própria”, garante.

Para quem pretende abrir um negócio, a capacitação é essencial para minimizar os riscos de empreender. Atualmente, o Sebrae disponibiliza a ferramenta gratuita Radar Sebrae que elabora os cenários de mercado de acordo com o perfil de cada cliente, além das capacitações presenciais e EAD.

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