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Moro adota tática de polarização de Bolsonaro como resposta a escândalo, diz autor

Bolsonaro e Moro: em sintonia no discurso.

Apostar na polarização. O ministro da Justiça, Sérgio Moro, tem a adotado a mesma tática do presidente Jair Bolsonaro como resposta aos vazamentos de diálogos privados que sugerem a sua colaboração com procuradores da Lava Jato enquanto ele era juiz. A análise é do economista e presidente do Idea Big Data Maurício Moura, que lançou, neste mês, o livro A Eleição Disruptiva, com o cientista político Juliano Coberllini. 

“Ele basicamente está dando a opção de comunicação que é: você é a favor ou contra a Lava Jato. Isso contribui mais para a polarização do que para a avaliação positiva dele”, afirmou Moura em entrevista ao HuffPost Brasil. 

O desconhecimento sobre o que ainda pode ser revelado e as incertezas que ainda pairam sobre as mensagens – o ministro do STF Edson Fachin, por exemplo, defendeu que haja uma perícia sobre o que foi divulgado pelo site The Intercept antes que sejam usado como prova – atrapalham uma avaliação mais precisa do cenário. A expectativa de Moura, porém, é de que a popularidade do ministro continue positiva.

Ele ressalta que o ex-juiz chegou a ser mais popular do que o presidente no início do governo. “Isso não acontecia no Brasil desde o Fernando Henrique [ministro entre 1993 e 1994] com o [então presidente] Itamar [Franco]. Acho que ele perdeu popularidade sim, mas continua sendo massivamente aprovado.” 

Moro e Bolsonaro foram aplaudidos em jogo do Flamengo em Brasília, 3 dias após a publicação da primeira matéria que denuncia suposta interferência do ministro. 

 

‘Estratégia Bolsonaro’ ainda em jogo

Para Moura, a “estratégia Bolsonaro”, que se mostrou efetiva nas eleições, segue em prática. O método é semelhante à linha adotada pelo presidente Donald Trump, “que basicamente dialoga com os seus apoiadores principais”. “Uma linha que não faz muito esforço para ir além do eleitor duro”, explica. 

A consequência, no entanto, é uma polarização maior, diz o economista. ”É você fortalecer sua base e a enriquecer com argumentos que sempre te favorecem e são contundentes em relação ao seu lado – e, claro, estimular a oposição do imaginário do cidadão”, explica.

Nesse tipo de comunicação, não há estímulo à moderação. “Isso tudo é muito ruim, porque a gente acaba dialogando menos. Governar é diferente de campanha, você governa para todos.”

Governar é diferente de campanha, você governa para todos

Seguindo essa análise, Moura alega que a estratégia pode acabar negativa para Bolsonaro, considerando o sistema de presidencialismo de coalização, em que, para você seguir no poder, é preciso necessariamente dialogar com eleitores que vão além do seu espectro mais duro, mais próximo. “Acho que isso explica um pouco a queda de popularidade dele muito rápida no início do governo. Agora ele se estabilizou basicamente na base mais forte dele.”

Uma pesquisa CNI/Ibope divulgada na última quinta-feira (27) mostra que, desde abril, subiu de 40% para 48% a parcela dos brasileiros que desaprovam a maneira de Bolsonaro governar, e de 45% para 51% os que não confiam nele. 

No mesmo período, o percentual dos entrevistados que avaliam o governo como ruim ou péssimo subiu de 27% para 32%, alcançando o mesmo patamar dos que consideram o governo como regular (32%) e como ótimo ou bom (32%). Esse último oscilou dentro da margem de erro de 2 pontos, de 35% em abril para 32%. A pesquisa ouviu 2.000 pessoas em 126 municípios, entre 20 e 26 de junho de 2019. 

 

Os pilares das eleições de 2018

No livro A Eleição Disruptiva, os autores afirmam que a eleição de 2018 foi baseada em dois pilares: o antipetismo, junto com o efeito Lava Jato, que desgastou os partidos tradicionais, e a campanha no celular. 

“Antes a gente tinha campanhas muito baseadas em rádio e TV, baseadas na estrutura partidária, nas ruas, o que fazia com que a famosa ‘máquina’ fizesse muita diferença. Com o telefone celular, a disseminação e o acesso ao conteúdo se democratizou e fez com que candidato sem estrutura e partido pudesse transmitir sua mensagem. Esse é um elemento que veio para ficar, um elemento estruturante”, escrevem Moura e Coberllini.

Os autores destacam ainda como a valorização da característica de “autenticidade” do então candidato foi positiva. “As falas espontâneas dele, sem filtros, davam uma sensação de proximidade com os eleitores. Isso não é uma coisa exclusiva do Bolsonaro, vimos isso em diversos países, mas esse é o elemento principal.”

Bolsonaro em visita a Donald Trump, em Washington.

Nas redes sociais. segundo a publicação, o fundamental é a construção de uma rede de apoiadores orgânicos, de pessoas reais.

“Trump conseguiu isso porque nos EUA existe uma dinâmica que não tem no Brasil, que são as primárias. A campanha lá começa naturalmente um ano e meio antes. O fenômeno Bolsonaro é de rejeição ao PT, mas a resposta principal foi pelas redes, que foram construídas antes da campanha. Para disseminar conteúdo em redes sociais como o WhatsApp, você precisa de pessoas disseminando, orgânico. E isso o Bolsonaro conseguiu e fez toda a diferença.”

Leia trechos do livro: 

 

Pouco importa o que eles falam 

Donald Trump impressionou o mundo político, a imprensa e a opinião pública com suas afirmações, no mínimo, controversas — para não dizer absurdas. Ele conseguiu a proeza de depreciar verbalmente os mexicanos (e, com isso, os latinos em geral), os afro-americanos, as mulheres, os muçulmanos, os deficientes físicos e diversos jornalistas, além de ridicularizar seus adversários. Nunca, na política americana, um candidato ultrapassou tanto o limite do razoável. 

Por outro lado, por mais contraintuitivo que fosse, coisa alguma parecia afetar negativamente sua campanha e sua imagem, tanto nas primárias quanto nas eleições gerais. A explicação ficou evidente quando tivemos acesso a estudos quantitativos e qualitativos feitos por colegas da Universidade George Washington. O eleitorado americano que tinha alguma inclinação a gostar de Trump — ou, pelo menos, a não rejeitá-lo — não levava suas falas ao pé da letra, mas levava a sério todas as suas posições. Já a imprensa e o mundo político, presos em suas respectivas bolhas, levavam suas declarações ao pé da letra, mas não o levavam a sério. Um evidente viés cognitivo que “cegou” analistas de opinião pública americanos. 

Um exemplo: ninguém acreditava plenamente nele quando dizia que grande parte dos mexicanos ingressantes nos Estados Unidos eram estupradores ou traficantes, e muito menos quando afirmava que iria construir um muro em toda a fronteira com o México, e que os mexicanos ainda iriam pagar pela construção. Porém, os eleitores confiavam que Trump seria muito mais duro com o tema imigração — fato que se materializou na sua gestão.

No quesito “geração de frases controversas” sobre minorias — especialmente mulheres, população LGBT e índios — e temas de política pública em geral, Jair Bolsonaro rivalizava diretamente com Donald Trump. A conhecida máxima “bandido bom é bandido morto”, amplamente atribuída ao ex-deputado, é um exemplo. Poucos terão sido os seus seguidores/admiradores que realmente acreditaram que um governo Bolsonaro seria pautado por matar criminosos e armar a população indiscriminadamente. No entanto, todos estavam convencidos de que um governo Bolsonaro seria mais duro em matéria de segurança pública. 

Os analistas políticos, imprensa e parte da opinião pública brasileira sofreram do mesmo viés cognitivo dos americanos: levaram Bolsonaro ao pé da letra e não o levaram a sério. 

Vale ainda mencionar que as frases polêmicas também ajudaram a construir o atributo de “autenticidade” tanto para Trump quanto para Bolsonaro. Elemento amplamente escasso, na mente dos eleitores, entre os políticos tradicionais. Nos deparamos muito, em pesquisas qualitativas, com as seguintes frases de eleitores brasileiros e americanos: “Podem até falar bobagem, mas pelo menos falam o que realmente pensam.” 

 

(…)

 

O “empurrãozão” das redes sociais 

Foi nas redes sociais que ambos fizeram história e deixaram um legado de como maximizar o uso dessas ferramentas de maneira autêntica, simples e direta. 

Se os órgãos de imprensa, cada um à sua maneira, sempre foram intermediários entre o eleitor e o político, as redes sociais permitiram a eliminação desses “mediadores”. A comunicação passa a ser direta e a interação possibilita a construção de uma relação à margem da mediação da imprensa. Esse fator mudaria a história de campanhas eleitorais ao redor do mundo e marcaria o sucesso de Trump e de Bolsonaro. 

Este livro tem um capítulo totalmente dedicado ao tema “redes sociais de Jair Bolsonaro”, mas é muito relevante a comparação entre ele e Donald Trump nessa área. 

O maior mérito de Trump foi estabelecer, por meio do Twitter, um diálogo aberto, constante, autêntico e real com as pessoas. Uma das maiores quebras de paradigma da comunicação política mundial. Acompanhar um político nunca fora tão simples: bastava ficar de olho em seu tweet matinal. 

Abaixo da linha do Equador, Jair Bolsonaro utilizou pesadamente o Facebook para incluir vídeos com fortíssimos elementos de autenticidade e realidade. Quem acompanhava diariamente a sua página se sentia muito próximo do candidato: nos eventos, na rua, nos deslocamentos e nos diálogos. A sensação de proximidade era imensa. 

Esse conteúdo se disseminou amplamente também no ambiente do WhatsApp. Nos Estados Unidos, o aplicativo foi, até o momento da conclusão deste livro, irrelevante para o contexto eleitoral. Somente americanos que se relacionam constantemente com o exterior o utilizam. 

 

A eleição disruptiva: Por que Bolsonaro venceu 

Editora: Record
Páginas: 168
Preço: R$ 34,90; e-book R$: 25,11

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