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Feminicídio não é “problema de mulher”: por que os homens precisam assumir essa luta

O feminicídio é a forma mais extrema de violência de gênero e, no Brasil, continua a ceifar vidas apesar de uma legislação robusta como a Lei Maria da Penha. Entre 2017 e 2024, a Bahia registrou 790 feminicídios — ou seja, em média, uma mulher foi vítima de violência letal de gênero a cada três dias nesse período.
Com esses números, na opinião de especialistas consultados pelo BNews, essa luta não pode ser vista apenas como um problema das vítimas — exigindo também um engajamento ativo dos homens e da sociedade como um todo —, como afirma Neusa Cadore, secretária de Políticas para as Mulheres do Estado da Bahia (SPM).
Para prevenir a violência, envolver meninos e homens como protagonistas dessa transformação cultural é um passo fundamental. Os homens precisam se engajar, se indignar, pensar sobre isso e se sensibilizar. As mulheres estão adoecidas. Este tema é urgente”, afirmou a secretária.
A mudança vem de berço
Na academia, estudiosos como Osmundo Pinho, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e referência em pesquisas sobre masculinidades, defendem práticas educativas e discussões profundas sobre gênero e relações afetivas para transformar atitudes desde a infância.
Em termos estritos, a masculinidade é uma performance política de poder, que investe em alguns corpos assinalados como ‘masculinos’ prerrogativas de poder que refletem a forma como as sociedades ocidentais têm construído a si próprias por meio de uma bio-lógica, que faz do corpo fundamento do poder”, explicao pesquisador.
Especialistas entrevistados pelo BNews concordam que envolver homens no enfrentamento ao feminicídio é uma estratégia que vai além da punição penal. Trata-se de uma mudança cultural profunda — que começa dentro de casa, nas relações afetivas, nas rodas de conversa entre amigos e nas salas de aula.

O desafio, para eles, é transformar a indignação em ações concretas: educação em gênero, redes de apoio às vítimas, cursos de masculinidades não-tóxicas, e espaços de reflexão e responsabilização que envolvam toda a sociedade — homens e mulheres — na construção de relações mais justas e igualitárias.
Acadêmicas como Carla Akotirene, doutora em Estudos de Gênero e professora da UFBA, apontam que combater o feminicídio também implica compreender as interseccionalidades entre gênero, raça e classe. Para ela, discutir masculinidades sem levar em conta desigualdades sociais mais amplas limita a eficácia das estratégias de prevenção e mudança cultural.
Combater o feminicídio é também revisar privilégios, escutar mais e agir com responsabilidade. É uma mudança que começa no cotidiano”, afirma Akotirene.
A tenente-coronel Roseli Santana, comandante do Batalhão de Policiamento de Proteção à Mulher da Bahia, chama os homens a repensarem modelos de masculinidade que privilegiam a força e a dominação, lembrando que “a valentia é uma mentira que deve acabar” e que proteger vidas é um valor que deve ser compartilhado por todos
A comandante frisou que “seu batalhão tem o trabalho reconhecido pela sociedade e fez um apelo aos homens para que se unam nessa luta das mulheres pela vida, porque a valentia é uma mentira que deve acabar”.
É preciso que a gente leve esta temática para as escolas, conversando, debatendo, para que todas as pessoas fiquem absolutamente inconformadas, denunciem e lutem pelo fim da violência doméstica”, pontuou.
Fonte: BNews