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Psiquiatra esclarece importância da campanha nacional ‘Janeiro Branco’ para a saúde mental
‘Janeiro Branco’ é uma campanha nacional de conscientização sobre a saúde mental, criada para desmistificar tabus e incentivar o autocuidado já no início do ano, aproveitando a simbologia de “página em branco” contida na denominação da iniciativa. O seu intuito é prevenir o adoecimento emocional e combater o preconceito em torno do tema, promovendo debates e acesso ao tratamento para transtornos como ansiedade e depressão.
O Bnews entrevistou, com exclusividade, a psiquiatra da Clínica Holiste Psiquiatria, sediada em Salvador, Virgínia Feitosa, e abordou tópicos fundamentais sobre a relevância da campanha. Confira, a seguir, o ping pong realizado com a médica:
Site BNews (SBN) – O que é ‘Janeiro Branco’ e por que ele é realizado especificamente no início do ano?
Psiquiatra Virgínia Feitosa (PVF) – É uma campanha dedicada à conscientização sobre a importância da saúde mental e emocional, que estimula as pessoas a refletirem sobre suas vidas, relações e propósitos, incentivando o debate, a reflexão e a busca por cuidados psicológicos, o que reflete na saúde física, e, consequentemente, combate o preconceito.
A escolha do primeiro mês do ano é pra simbolizar uma página em branco. Imagine que o mês de janeiro é como uma folha de papel em branco na qual que as pessoas podem escrever novas histórias e planejar mudanças, simbolizando um recomeço. Nesse período doa no, é comum também um sentimento de melancolia pós – festas de fim de ano, em que muitas pessoas sentem um “vazio” ou ansiedade após as celebrações, tornando este o momento ideal para o acolhimento psicológico.
SBN – Por que o tema da saúde mental ainda precisa de uma campanha intensiva como esta?
PVF – Nos tempos atuais, enfrentamos muitos desafios e normalizamos rotinas que vão de encontro ao bem estar emocional, como um ritmo de vida acelerado causado pelo excesso de conectividade e pressão por produtividade, levando a um aumento d e casos de Burnout e estresse crônico. Muitas pessoas ainda desconhecem os transtornos mentais ou não sabem onde buscar ajuda ou mesmo não têm condições financeiras para sustentar tratamentos contínuos. A importância de uma campanha intensiva tem como objetivo prevenir o adoecimento e não apenas tratar a crise.
SBN – Qual é o principal objetivo da campanha neste ano de 2026?
PVF – O lema da campanha em 2026 é “Paz, equilíbrio e saúde mental” e objetiva promover a saúde mental e emocional, incentivando a reflexão, o diálogo e o cuidado com o bem estar psicológico, combatendo os tabus e destacando a relevância do autocuidado, da procura por ajuda profissional e de um ambiente mais empático e saudável.
SBN – Como a campanha ajuda a combater o estigma relacionado a doenças como ansiedade e depressão?
PVF – O estigma nasce do medo e da desinformação. A campanha atua promovendo a conscientização de que doença mental não é sinal de fraqueza ou falta de Deus, mas uma condição de saúde como qualquer outra, disseminando informação, quebrando tabus, incentivando o cuidado integral com a saúde e encorajando o diálogo, permitindo que, quem sofre, sinta-se seguro em pedir ajuda sem ser julgado como “louco” ou “instável”.
SBN – O que significa dizer que “saúde mental é um compromisso coletivo”?
PVF – Significa que ninguém é saudável sozinho, e somos diretamente responsáveis pela nossa saúde mental e a das pessoas do nosso convívio. Por exemplo, em nosso ambiente de trabalho e relações interpessoais no geral (com familiares, amigos), precisamos promover conexões e vínculos saudáveis, criar ambientes profissionais sem assédio ou sobrecarga, promover o diálogo e apoio mútuo sem cobranças excessivas, ter empatia e oferecer escuta ativa ao próximo. Na esfera política, é fundamental que sejam implementadas políticas públicas de lazer, segurança e acesso a psicólogos e psiquiatras.
SBN – A “pressão por metas” no início do ano pode prejudicar a saúde mental? Como equilibrar desejos e realidade?
PVF – Sim, a pressão por metas no início do ano é um fenômeno real e pode ser bastante prejudicial. A cobrança excessiva gera o que chamamos de ansiedade antecipatória. Quando as metas são irreais, o cérebro interpreta a distância entre o “onde estou” e “onde deveria estar” como uma ameaça, liberando cortisol (o hormônio do estresse).
Ao invés de buscar a perfeição e alcançar a meta final de imediato, busque o progresso, fatie a meta final em etapas e vá seguindo um passo por vez. Evite abraçar novos projetos antes de concluir os que estão em andamento e fuja do imediatismo.
SBN – Como utilizar o simbolismo do “Janeiro Branco” para iniciar um processo de autoconhecimento?
PVF – Use o simbolismo da página em branco não somente para escrever o que você quer realizar, mas pra descrever como você quer se sentir. Comece um diário de sentimentos. Escrever sobre suas emoções ajuda a organizar o pensamento e identificar situações potencialmente adoecedoras que devem ser evitadas. Questione-se constantemente: essas metas de recomeço são minhas ou são expectativas dos outros projetadas em mim? O autoconhecimento nasce da distinção entre o que é desejo genuíno e o que é pressão social.
SBN – Quais são os sinais de alerta de que nossa saúde mental está precisando de atenção?
PVF – Nem sempre o sofrimento mental é óbvio. Ele pode aparecer em forma de sintomas físicos (como cansaço constante, dores de cabeça, sintomas gastrointestinais – náuseas, diarreia), alterações no sono e no apetite, impaciência, irritabilidade excessiva, apatia, choro fácil, redução da sensação de prazer em atividades que antes eram prazerosas, desejo de isolamento social, dificuldades de concentração e esquecimentos frequentes. É importante buscar ajuda profissional com um (a) psiquiatra ainda no início dos sintomas para uma avaliação adequada e, se indicado, início precoce do tratamento pra evitar agravamentos do quadro.
SBN – O que fazer pela saúde mental agora e sempre?
PVF – É imprescindível trabalhar o autoconhecimento e o reconhecimento dos nossos próprios limites, alem de adotar hábitos terapêuticos. Devemos continuamente exercitar o “não” (aprender a dizer não para compromissos ou relações que drenam nossa energia; estabelecer períodos de “detox digital” (o excesso de uso das redes sociais reduz nossa capacidade de reconhecimento de emoções e autorregulação emocional, além de ser um potencial gatilho para ansiedade, depressão e sentimentos de inadequação social, visto que gera um excesso de comparação com a vida do outro). E ressalto que é importantíssimo e não custa nada lembrar: seja gentil consigo.
SBN – Quais hábitos diários, além da terapia, contribuem para o equilíbrio emocional?
PVF – Hábitos que não são terapia, mas são terapêuticos: atividade física (optar por aquela que te proporciona prazer); higiene do sono; práticas meditativas; exposição à luz solar; dieta equilibrada (lembrando que o intestino é considerado nosso “segundo cérebro”); e socialização com interações genuínas.
SBN – Como as empresas podem contribuir para a saúde mental dos funcionários durante o ano?
PVF – As empresas devem proporcionar um ambiente de trabalho acolhedor, onde o colaborador possa admitir que está sobrecarregado sem medo de ser demitido ou julgado. É necessário treinar gestores para identificar sinais de Burnout em sua equipe, assim como para dar feedbacks construtivos e não punitivos. Precisam respeitar o horário de trabalho, evitando acionar o colaborador fora do expediente. Devem também incentivar e oferecer subsídios para cuidados em saúde mental.
SBN – Em que momento a pessoa deve procurar ajuda profissional?
PVF – Muitas pessoas só procuram ajuda profissional quando chegam ao limite do esgotamento mental. Devemos buscar atendimento com psiquiatra ou psicólogo (a) a partir do momento em que percebemos os primeiros sinais de alerta. Se começamos a sentir uma tristeza ou ansiedade duradoura, por exemplo, ou se esses sintomas começam a prejudicar seu rendimento no trabalho, estudos ou nas relações interpessoais, é importante buscar ajuda imediatamente.
SBN – Como o contexto atual (pós-pandemia, redes sociais, incertezas econômicas) aumentou a necessidade da campanha nacional ‘Janeiro Branco’?
PVF – Tivemos muitas sequelas pós – pandemia e sofremos com elas até hoje. O isolamento social forçado reduziu as interações sociais, aumentou casos de ansiedade e depressão pelo contexto de medo e incerteza vivenciado na época e pelo grande luto coletivo. Nesse período também houve uma intensificação do uso de telas, os contatos passaram a ser normalizados em uma predominância mais virtual, o que leva a um maior uso de redes sociais, gerando comparações constantes com vidas perfeitas e irreais, acarretando em mais ansiedade e sensação de insuficiência, principalmente entre os mais jovens. As incertezas econômicas presentes no cenário atual, com aumento da inflação e instabilidade financeira levam a um estado de alerta constante, predispondo a um maior adoecimento psíquico.
SBN – Qual é a importância da prevenção ao adoecimento emocional no ambiente de trabalho?
PVF – O trabalho ocupa a maior parte da nossa vida adulta e a negligência com a saúde mental nesse ambiente tem custos elevadíssimos. Casos de afastamento laboral por causas relacionadas ao ambiente de trabalho são muito comuns e cada vez mais presentes, sendo importante incentivar o cuidado com a saúde emocional não apenas por uma questão humanitária, mas também por questões econômicas. Indivíduos saudáveis emocionalmente são mais criativos, produtivos e engajados.
SBN – Como cuidar da saúde mental dos idosos, um público vulnerável?
PVF – É preciso estimular a autonomia do idoso, estabelecer rotina, promover socialização, incentivando atividades que garantam o sentimento de utilidade e conexões sociais, além de manter vigilância sobre alterações comportamentais que muitas vezes podem ser confundidas com demência.
SBN – Que mensagem final a campanha ‘Janeiro Branco’ quer deixar para o restante do ano?
PVF – A mensagem final da iniciativa ‘Janeiro Branco’ é que o cuidado com a saúde mental não termina em janeiro, mas deve ser uma prioridade contínua para o ano todo, transformando lembretes de urgência (como post-its) em avisos de autocuidado, buscando equilíbrio, paz, desacelerando o ritmo e construindo um suporte social e profissional para florescer.
A campanha convida à reflexão e ação permanentes, a fim de que ninguém precise adoecer para ter suas necessidades emocionais reconhecidas, e foca na conscientização para desconstruir o estigma em torno da saúde mental. É importantíssimo desfazer a imagem do psiquiatra como “médico de louco” e reconstruí-la como “o médico das emoções” para que as pessoas percam o medo de buscar ajuda por receio de serem taxadas como loucas. E lembrem-se: não hesitem em procurar um “médico das emoções” se sentir que está muito difícil pra você, completa Virgínia Feitosa, psiquiatra da Clínica Holiste Psiquiatria.
Fonte: BNews