Sem categoria

Salvador 2026: A cidade onde morar virou luxo e sobreviver virou sacrifício

Todo fim de mês é a mesma coisa: a conta nunca fecha. Quando o cidadão soteropolitano soma a feira, o transporte, a luz, a água e o aluguel, o salário, antes mesmo de cair na conta, já foi embora, deixando boletos pelo caminho, pendentes e acumulados para o mês seguinte. Em Salvador, nos últimos anos, viver deixou de ser apenas caro e tornou-se um exercício diário de renúncia. E, para 2026, as perspectivas não são nada animadoras.

Receba as principais notícias de Política no canal do BNews no WhatsApp

Os primeiros dias do novo ano em Salvador começaram com:

  • aumento do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU);
  • aumento da Taxa de Lixo;
  • aumento da tarifa dos ônibus urbanos da capital;
  • aumento da tarifa dos ônibus intermunicipais, que partem da capital para o interior do estado, inclusive para cidades da Região Metropolitana, rotas feitas por diversos soteropolitanos para trabalho, por exemplo;
  • cesta básica com elevação acima da média nacional
  • aluguel com aumento maior que o nacional; 
  • Previsão de reajuste na conta de energia elétrica pela Neoenergia Coelba; e
  • Possibiliade de aumento da tarifa de água (Embasa).

Cenário socioeconômico preocupante de Salvador 

De acordo com dados do Censo Demográfico (2022) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a renda domiciliar per capita da capital baiana é de R$ 1.770. Esse valor é 9,19% maior que o salário mínimo atual, de R$ 1.621, que entrou em vigor em 1º de janeiro, e supera em 8% a média nacional de R$ 1.638. Salvador está atrás de todas as capitais do Sul, Sudeste e Centro-Oeste e, no Nordeste, posicionada depois de Recife, Aracaju, Natal e João Pessoa.

O levantamento “Mapa da Desigualdade entre as Capitais”, do Instituto Cidades Sustentáveis (ICS), de 2024, aponta que a capital baiana possui a maior proporção de pessoas com renda domiciliar per capita por dia inferior a US$ 1,9 (menos de R$ 11), além do percentual recorde de desnutrição infantil do país. A primeira sede política e administrativa do Brasil é a capital com menor PIB per capita e com maior taxa de desocupação.

Manu Dias/GOV BA

 

No que diz respeito ao índice de pessoas abaixo da linha da pobreza, as menores taxas são de Florianópolis (SC), com 1,1%, Curitiba, com 2,3%, e Cuiabá, com 2,7%. Na outra ponta, estão Recife (PE), Rio Branco (AC) e Salvador, todas com mais de 10% da população nessa condição

O estudo, que possui o apoio da União Europeia (UE) e da Frente Nacional de Prefeitos (FNP),  mostra Salvador como a pior capital do Brasil em diversos índices, sendo a que possui percentual recorde de pessoas inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) para programas sociais: mais de 88%. Isso que dizer que, das 2,4 milhões de pessoas que moram em Salvador, mais de 2,1 milhões estão inscritas no CadÚnico.

Reprodução / Google Maps
Reprodução / Google Maps

 

Diante deste cenário, o aumento do custo de vida para milhares de famílias soteropolitanas vai muito além de um debate técnico e de uma projeção econômica. Representa uma escolha forçada entre comer ou comer melhor e pagar a conta de luz, o ônibus, de água, o aluguel. Entre manter a geladeira ligada o tempo inteiro ou evitar uma fatura assustadora, por exemplo. 

Aumentos e previsões de reajuste em 2026

  • Ônibus urbanos

Após o prefeito Bruno Reis (União) ter surpreendido a população soteropolitana, no final dezembro, com a informação de que a tarifa dos ônibus da capital iria sofrer reajuste, a Prefeitura de Salvador anunciou no dia 02 de janeiro que a passagem passaria, como passou, para R$ 5,90. Com o novo valor, os moradores da capital passaram a pagar a terceira tarifa de ônibus mais cara do Brasil e a mais alta do Nordeste, embora Bruno Reis tenha justificado que o reajuste é menor do que o anunciado por outras capitais e que o acréscimo “não depende do prefeito” e está previsto em contrato.

Dinaldo Silva/BNews
Dinaldo Silva/BNews

 

  • IPTU e Taxa de Lixo

Ainda no final de dezembro, o chefe do executivo municipal da capital baiana também aumentou  o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e a Taxa de Resíduos Sólidos Domiciliares (TRSD), a chamada taxa de lixo, para o exercício de 2026. O IPTU foi reajustado em 4,46%, calculado a partir do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Leitor/ BNews
Leitor/ BNews

 

Ônibus intermunicipais

No último dia 15 de janeiro, a Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações da Bahia (Agerba) informou que as tarifas de ônibus intermunicipais ficariam, como ficaram, mais caras na Bahia, a partir de 17 de janeiro. As linhas semiurbanas, fora da Região Metropolitana de Salvador (RMS), tiveram reajuste de 8,44%. Já no transporte rodoviário intermunicipal, o aumento foi de 6,28% para as linhas de longa distância e para as linhas da região metropolitana que partem de terminais rodoviários.

Ulgo Oliveira -Ascom/ Seinfra
Ulgo Oliveira -Ascom/ Seinfra

 

As taxas de embarque também sofreram acréscimo de 5,17%, passando a custar R$ 9,08 para viagens interestaduais, R$ 3,75 para viagens intermunicipais e R$ 1,55 para viagens intermunicipais metropolitanas.

Segundo o governador Jerônimo Rodrigues (PT), a Agerba fez um estudo e existe um contrato que precisa ser seguido. Ele afirmou que pediu que houvesse ponderação nos valores. 

  • Energia elétrica

Embora ainda não haja um anúncio formal de aumento da conta de energia elétrica, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), procurada pelo BNews, afirmou que haverá reajuste, conforme está acordado no contrato de concessão entre a União e a Neoenergia Coelba.

“Todas as regras utilizadas no reajuste tarifário anual constam na legislação setorial e nos Procedimentos de Regulação Tarifária. Todas essas regras foram construídas com participação social, por meio de Consultas Públicas. O cálculo dos reajustes tarifários anuais decorre do estrito exercício da competência legal atribuída à Agência Reguladora, à luz as cláusulas contratuais disciplinadoras da matéria, assim como ocorre para todas as concessionárias de distribuição do país”, disse.

Divulgação / Neoenergia Coelba

Divulgação / Neoenergia Coelba

 

Ainda segundo a Aneel, o reajuste de 2025 da Neoenergia Coelba resultou em efeito médio de 2,05%, sendo de 1,88% para os consumidores de baixa tensão e de 2,53% para os consumidores de Alta tensão. Já para para os consumidores de baixa renda, que estão inscritos no CadÚnico e têm direito à Tarifa Social, o índice de reajuste foi de 0,37%.

  • Água

A Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), também questionada pelo BNews, não deixou claro se haverá aumento da taxa de água em 2026. Entretanto, afirmou que os acréscimos são anuais e sempre autorizado pela agência reguladora, dando a entender que a população soteropolitana pode enfrentar reajuste este ano. A Embasa destacou ainda que os aumentos são necessários para recompor as variações da inflação do período de insumos como energia, produtos químicos, equipamentos e materiais hidráulicos. 

Divulgação/Embasa
Divulgação/Embasa

 

A empresa disse ainda que nos últimos anos os aumentos foram menores que a inflação e que em 2023 e 2024 não houve impacto na Tarifa Social. O valor da conta de água, aponta a Embasa, está diretamente relacionado ao consumo, que tende a aumentar nos períodos mais quentes do ano devido às altas temperaturas. 

Resquícios de 2025 com perspectivas ruins para 2026

  • Cesta básica

A cesta básica de Salvador comecçou 2026 mais salgada, já que seu valor apresentou uma elevação de R$ 14,98 em dezembro de 2025, conforme dados divulgados no início de janeiro. O montante a maior representa aumento de 2,69%, de acordo com o cálculo da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), com base em 3.513 cotações de preços realizadas em 92 estabelecimentos comerciais (supermercados, açougues, padarias e feiras livres) da capital.

 

Vitor Vasconcelos/Secom/PR
Vitor Vasconcelos/Secom/PR

 

Segundo a SEI,  em dezembro de 2025, o subconjunto dos ingredientes relativos ao almoço soteropolitano, composto por feijão, arroz, carnes, farinha de mandioca, tomate e cebola, apresentou alta de 3,31% e foi responsável por 33,16% do valor cesta. Já o subgrupo de gêneros alimentícios próprios da refeição matinal soteropolitana, formado por café, leite, açúcar, pão, manteiga, queijos e flocão de milho, aumentou 1,09% e foi responsável por 35,52% do valor da cesta.

No mesmo mês, o trabalhador soteropolitano que conseguiu comprar uma cesta básica completa, comprometeu 40,78% do valor líquido de um salário mínimo com o pagamento. 

  • Compra e aluguel de imóveis

Salvador registrou alta no valor de imóveis, tanto para compra quanto para aluguel, em 2025, e a tendência é que essa alta se mantenha em 2026. Enquanto no Brasil comprar um imóvel residencial ficou, em média, 6,52% mais caro no ano passado, o preço em Salvador disparou 16,25%, sendo a capital dos baianos a que apresentou o maior valor no país. Os números são do Índice FipeZAP, divulgados no início de janeiro.

Os dados do Índice FipeZAP mostram ainda que houve uma expressiva valorização do setor de locação. Salvador terminou 2025 com alta acumulada no valor do aluguel de 12,38%, muito acima da média nacional, que foi de 9,44%, e quase o triplo da inflação do período, medida pelo IPCA/IBGE, que fechou em 4,26%.

E como viver em Salvador, a capital em que viver custa caro e sobreviver custa mais?

A primeira capital do Brasil é hoje uma das capitais onde o custo de vida pesa mais no bolso de quem menos tem. São tarifas de transporte em constante reajuste, somado à precarização do serviço e à frota sucateada, contas de energia elétrica e de água que nocauteiam o trabalhador, pressionadas por reajustes e bandeiras tarifárias, além da cesta básica que abocanha uma fatia cada vez maior da renda mensal das famílias. Fora o aluguel que dispara de forma indistinta, independente do bairro e da região da cidade, além da compra da casa própria que se coloca cada vez mais longe do horizonte de milhares de soteropolitanos.

A metrópole reconhecida pelo carnaval, pela felicidade do seu povo, pela hospitalidade, carisma e simpatia da sua gente, esconde um cenário que muitos nâo enxergam ou preferem não enxergar:  profundas desigualdades sociais e milhares de famílias tendo que escolher entre pagar as contas ou garantir o básico dentro de casa. Indicadores podem até apontar um crescimento econômico pontual da cidade, mas a realidade nas ruas, becos, vielas e morros revela um abismo entre dados frios e vidas reais

Em conversa com o BNews, dona Ana Rita Conceição, moradora do bairro do Arenoso, e que há anos trabalha como diarista, conta como é difícil tentar fechar as contas no final do mês e viver na cidade. 

“Hoje, o que entra na minha casa no mês não é suficiente. Não é suficiente. Não dá. Porque, antigamente, eu lembro que a gente

Foto: Lucas Pacheco

Ana Rita Conceição

ia fazer uma compra e a gente vinha com muitas sacolas. Tinha que pegar até um carro pra trazer em casa. Hoje, a gente vem com duas sacolinhas e aí não dá. Eu trabalho de diarista e aí, às vezes, aparecem duas, três diárias. Às vezes só aparece uma. E aí, para mim, não dá. No meu orçamento não dá, falta muita coisa. Aí, eu tenho que comprar gás, tenho que pagar água, pagar luz. Minha água, a última vez, o recibo de agora veio R$130. Eu não sei nem o que vou fazer. Mas eu tenho que pagar, né? E, enfim, é tudo muito caro. O custo de vida, tá caríssimo. Os mercados a gente tem que ficar, vai ali, vai aqui, procurando coisas mais baratas pra comprar, porque a gente não acha. Aí a gente tem que ficar: hoje eu vou no mercado, dou uma olhada, aí compro uma coisinha, amanhã vou em outro, dou uma olhada, compro uma coisinha”, disse.

O depoimento dela é mais duro ainda quando a diarista aponta o sofrimento diário com o transporte público e a obrigação de cortar o lazer. 

E assim, não temos mais lazer. A gente vai a uma praia, chega na praia e tem que pagar tudo, uma mesa com cadeira você tem que pagar. Você pede um petisco, pede uma cerveja, caríssimo. Então, a gente não tem mais lazer. A gente não pode mais fazer um lazer em casa. Os transportes estão horríveis. Aumentou e você pega um transporte hoje com tudo sujo, nem todos têm ar-condicionado, a gente leva não sei quanto tempo no ponto esperando o ônibus. Então, meu amigo, o sofrimento da gente é esse aí”, desabafou

Vera Lúcia Roha, doméstica, que mora em Tancredo Neves, afirma que também não consegue quitar as despesas no final do mês em Salvador. 

O custo de vida tá alto, né? As coisas no mercado estão muito altas, você vai encontrar um preço um dia, no outro dia já tá um

Vera Lúcia Rocha
Vera Lúcia Rocha

valor absurdo. Eu tive que cortar o lazer para conseguir sobreviver. Porque você sai e gasta muito. Praia agora mesmo, as barracas estão caríssimas, energia também. Tive que cortar um pouco, deixar o ventilador mais desligado, mesmo nesse calor que está em Salvador e é isso. E o que eu acho mais caro em Salvador é o transporte, né? Porque a gente paga muito caro e não tem qualidade no serviço. Os ônibus são precários. O transporte todo ano aumenta, mas a qualidade no serviço não melhora. A conta de luz vem muito cara, até que a minha não tá vindo muito cara porque eu fiz muitos cortes, né? De deixar a luz mais desligada, ventilador desligado. Então tá caro ainda, pelo serviço que eles nos proporcionam”, disse. 

Um levantamento do Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com o Serviço Social do Comércio de São Paulo (Sesc-SP), executado pela Ipsos-Ipec, mostrou que 67% da população soteropolitana afirma que deixariam a capital baiana e escolheriam uma nova cidade para viver. Na pesquisa divulgada em dezembro de 2025, os entrevistados responderam se sairiam da cidade onde vivem, caso pudessem, ou se permaneceriam.

Segundo a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia – SEI, autarquia estadual responsável por produzir, analisar e disseminar dados estatísticos, geográficos e estudos socioeconômicos do estado, o aumento do custo de vida é mais acentuado para famílias de baixa renda por causa da própria estrutura orçamentária destas famílias, cujos rendimentos são quase inteiramente dedicados a cobrir necessidades básicas para sobrevivência.

Além da cesta básica, as despesas residenciais como aluguel, condomínio e conta de água e energia são despesas fixas que tomam uma fatia da renda mensal. (…) a tarifa do ônibus/metrô caracteriza um custo obrigatório para aqueles que dependem do transporte público e que não pode ser cortado”, aponta Denilson Lima, economista da SEI, em entrevista ao BNews

Ainda de acordo com a autarquia, embora o custo da cesta básica apresente flutuações sazonais, entre 2023 e 2025 pode-se perceber um encarecimento estrutural da cesta básica em Salvador. Enquanto a média do custo mensal da cesta foi de R$ 551,70, em 2023, o custo mensal da cesta em 2025 foi de R$ 589,11, um aumento de 6,78%. E quando se expande a análise para outros componentes, como energia elétrica, aluguéis, por exemplo, a inflação acumulada entre 2023 e 2025 foi de 13,53%, segundo o IBGE, por meio do IPCA, para a Região Metropolitana de Salvador.

Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) / Foto: Divulgação
Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) / Foto: Divulgação

 

Nesse mesmo período, na contramão, o rendimento médio real do trabalho mostra uma queda. Entre o 3º trimestre de 2025 (último dado disponível) e o primeiro trimestre de 2023, houve uma queda de 7,5% no valor do rendimento médio mensal habitualmente recebido pelo trabalhador em Salvador, muito acima da variação nacional que foi de 1,4%.

Analisando de forma conjunta o aumento do custo da cesta básica e a redução do rendimento médio dos soteropolitanos (seja o que tem origem apenas do trabalho, como o que considera as demais fontes), podemos inferir que, em média, o poder de compra do soteropolitano que consome os itens da cesta básica ficou menor. Claro que em relação aos gêneros alimentícios, deve se observar que uma série de fatores podem levar ao aumento dos preços. A escassez de produtos devido à secas e/ou excesso de chuvas, a influência do dólar e os custos de importação de produtos são alguns destes fatores”, diz Denilson Lima. 

A Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia ressalta que, diferentemente das classes de maior poder aquisitivo, que dispõem de recursos financeiros para absorver com maior facilidade oscilações ou realizar aplicações compensatórias, as famílias mais vulneráveis têm que enfrentar a perda do poder de compra do dinheiro causada pela inflação como mais uma variável que gera e aprofunda as disparidades socioeconômicas muito comuns em uma cidade como Salvador.

Diante da alta inflacionária, infere-se que um aumento generalizado de preços não incide igualmente sobre os diferentes estratos sociais, penalizando severamente as camadas de menor renda. Considerando que tais famílias destinam quase a totalidade de seus recursos ao consumo de itens de sobrevivência – como gêneros alimentícios, energia e transporte – a elevação nos custos desses bens básicos corrói o poder de compra de forma imediata”, afirma o representante da SEI.

O BNews também conversou com Edval Landulfo, economista e presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon-Ba). Questionado sobre onde o orçamento estoura primeiro nas famílias soterpolitanas, considerando a renda per capita, ele é categórico ao afirmar que a alimentação é o que pesa mais.

“Segundo os cálculos do DIEESE, vamos colocar uma média, uma família composta de dois adultos e duas crianças, no mês de dezembro, que janeiro de 2026 ainda não fechou, você precisa exatamente de uma renda familiar de R$ 7.112. Então, se você tem dois adultos dentro de casa, seria mais ou menos quase R$ 3.600, quase dois salários para cada integrante adulto, para você arcar com transporte, moradia. E quando você traz essa média per capita, a maioria desses trabalhadores vai receber um salário mínimo quando é assalariado, ou um pouco menos devido ao trabalho informal. Então, infelizmente, não tem condições de arcar com esse básico. A questão de transporte, muitas vezes essas pessoas vão utilizar o dinheiro do transporte para fazer um outro tipo de compra, vão andar de bicicleta ou andar dentro do bairro, para poder com esse dinheiro comprar algum outro item. Então, a alimentação dessas pessoas é bem precária. Você não tem refeições que vão entregar todas as calorias desse dia. Lazer também é muito comprometido, vai ser justamente no bairro. Então, o orçamento vai apertar primeiro nos itens supérfluos, como um queijo, um presunto, uma pizza. Eu não estou nem falando de artigos de luxo. E depois em alimentação, porque tem que pagar as concessionárias de energia, água e, muitas vezes, um aluguel de R$ 300, R$ 400, R$ 500, R$ 600. E o que sobra para alimentação já é comprometido. Então, a alimentação tem um peso bem significativo. O transporte, muitas vezes, vai se fazer a pé, porque não tem condição de pagar o transporte coletivo, para ter ideia”, alegou.

O presidente do Corecon-Ba destacou que existem vários índices inflacionários que compõem uma faixa de imposto e que ajudam a ter noção de como é a incidência naquele determinado setor, apontando que há diferença entre a inflação que é divulgada pelos índices oficiais e a que é efetivamente sentida pela população, pelas famílias mais pobres

Edvaldo Landulfo / Foto: Divulgação
Edvaldo Landulfo / Foto: Divulgação

 

“No caso de uma família, aí vamos ser bem didáticos, ano passado 0,25% a inflação. Mas essa inflação é a inflação pelo índice oficial. Mas se uma determinada família é composta de quatro pessoas e come todos os dias feijão e vamos dizer que o feijão aumentou 15%, essa família teve um peso maior, porque o item feijão é mais consumido nessa família. Já a minha família, por exemplo, come feijão de vez em quando. Então, se o item sobe, ele não vai ter impacto na minha renda, porque eu já tenho outra forma de alimentação. Então, quando se fala sobre a possibilidade de aumento de energia, aumento naqueles impostos que são necessários, essa população vai sentir mais rapidamente”. 

Edval Landulfo chamou a atenção para a necessidade de investimentos públicos chegarem, sobretudo, a bairros mais carentes e periféricos, como forma de não somente beneficiar a população que mais precisa, mas também como estratégia de melhoria da renda e da arrecadação.

“Quando eu pego e invisto em determinados bairros, ali, com toda a infraestrutura proposta de saúde, de lazer, de educação, eu vou ter boa parte da sociedade integrada em todo o sistema. Mas, quando o governo deixa de atuar nessas áreas, você vai ter um prejuízo enorme pra segurança pública, para transporte, para alimentação, em todos os setores. Por isso que o dinheiro arrecadado, ele tem que ser muito bem empregado em ação, em atividade de lazer, para que a população tenha um bem-estar. Se a população tem um bem-estar, tem uma qualidade de vida, isso retorna para o governo através de maior arrecadação, porque haverá iniciativas, tanto no trabalho formal, de novas contratações, de pessoas mais qualificadas, como também no mercado informal, porque as pessoas podem começar, como dizia a música de Edson Gomes, ‘Sou camelô, sou do mercado informal’, mas camelô é todas essas pessoas que não têm uma legalidade. Então, esses projetos precisam ter essa iniciativa, mas terá que ser criado por meio também. Temos que parar de ver o dinheiro público como dinheiro apenas como para um nicho da população. O dinheiro público tem que chegar a quem mais precisa, a quem foi por muito tempo desvalorizado”. 

Salvador segue em 2026 com disparada no custo de vida, transformando direitos básicos em artigos de luxo e fazendo com que a sobrevivência vire um exercício diário de resistência para uma parcela imensa da população. Entre contas pesadas, tarifas nas alturas, serviços públicos precarizados e ruins e uma desigualdade cada vez mais profunda, a capital baiana é um símbolo máximo de cidade que pesa no bolso dos mais pobres, cobra caro demais da sua gente e oferece muito pouco. 

Fonte: BNews

Notícias relacionadas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close
Close